Valdo Rosário1
Deus é por si mesmo conhecido?
Uma ideia ou coisa é verdadeira quando recorre a existência da verdade
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”2.
Assim, Deus prova sua existência por si próprio
É possível pensar o contrário da existência de Deus?
“Disse o néscio no seu coração: Não há Deus”3.
Nessas circunstâncias a existência de Deus não é por si conhecida
Todavia uma coisa pode ser conhecida de duas maneiras: por si, e pelo efeito
“Absolutamente, e não relativamente a nós; e absolutamente e relativamente a nós”4.
Toda proposição é conhecida por si, quando o predicado se inclui no sujeito
Entretanto, se a pessoa for ignorante quanto ao predicado e sujeito, nenhuma proposição será evidente
A proposição Deus existe, devido sua essência (Natureza), e o predicado se identificando com o sujeito
Como não sabemos em sua essência o que é Deus, a proposição não é por si evidente, precisando ser demonstrada pelos efeitos
Conhecer Deus por si próprio pode ser confuso, porque esse conhecimento é ínsito, mas não é absoluto
Deus é a felicidade dos homens, todavia, para muitos a felicidade consiste em fama, dinheiro e outras coisas
O nome Deus pode ser compreendido pelo intelecto, a não ser que se possa conceber algo superior a ele
É possível demonstrar a existência de Deus no contexto da imanência?
Parece que não, porque essa existência é artigo de fé; provas imanentes cabe a ciência
Então seria possível demonstrar a existência de Deus pelos seus efeitos?
“Ora, sendo Deus infinito e estes, finitos, e não havendo proporção entre o finito e o infinito, os efeitos não lhe são proporcionados”5.
1 Licenciado em filosofia pela UCG/GO., mestre em filosofia pela UFT/TO.; escritor e professor de filosofia no Ensino Médio na Escola. E. E. Médio Profa. Elza Dantas, S. Domingos do Araguaia/PA.
2 Jo. 14, 6.
3 Sl. 52, 1.
4 AQUINO, Santo Tomás. Suma Teológica (vol. 1). Campinas/SP. Ed. Ecclesiae, 2020, p. 38.
5 Ibid, 2020, p. 38.
Se a causa não pode ser demonstrada pelo efeito, conclui-se que não é possível demonstrar a existência de Deus
Entretanto, São Paulo afirma: “As coisas invisíveis de Deus se veem depois da criação do mundo, consideradas pelas obras que foram feitas”6.
Isso não seria possível, se a existência de Deus não fosse demonstrada pelas coisas feitas Todo ser só é compreensível a partir de sua existência
Todavia temos duas formas de demonstração: uma pela causa, pelo porquê das coisas, e outra pelo efeito, que é a posteriori
Assim a existência de Deus pode ser demonstrada pelos efeitos que conhecemos dele
Portanto, a existência de Deus pode ser conhecida pela razão natural, não é necessariamente artigo de fé como está na escritura
Provar a causa pelo efeito, se faz necessário utilizar ele no lugar da causa daquele que se vai provar
Sabe-se que para provar a existência de alguma coisa, torna-se necessário incluir como termo médio o que significa o nome e não o que a coisa é, assim a proposição – o que é – acompanha à outra – se é
A demonstração da existência de Deus pelo efeito, implica que o termo médio é a significação do nome de Deus
Demonstrar a existência de Deus pelo efeito, não significa que o conhecemos na sua essência
Se Deus existe, também podemos dizer que ele não existe
A existência de Deus que é o infinito, destrói a proposição contrário de não existência dele
Por meio de Deus compreendemos o bem infinito
Deus existindo não é possível a existência do mal
Entretanto, o mal existe, logo não existe Deus
Não há necessariamente uma correlação direta entre menos e mais
As coisas criadas no mundo pelos homens, nem todas são de Deus
Até porque o mal não é um Ser necessário e sim de falta, segundo Santo Agostino Ele só passa a existir quando não se pratica o bem
Porém é possível provar a existência de Deus por cinco vias, segundo Tomás de Aquino
A primeira via é advinda do movimento verificados pelos sentidos, demonstrando que alguns seres são movidos
6 Rm. 1, 20.
Todo movimento acontece em potencial, de levar uma coisa de potência a ato Uma coisa não pode ser motoro e movida, ou mover-se a si própria
Tudo o que é movido requer uma causa primeira
“Se, portanto, o motor também se move, é necessário seja movido por outro, e este por outro. Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haverá nenhum primeiro motor e, por consequência, outro qualquer; pois, os motores segundos não movem, se não movidos pelo primeiro, como não move o báculo sem ser movido pela mão.”7
Portanto é necessário chegar a um motor que não é movido por nenhum um outro, no qual é Deus
A segunda via é denominada de causa eficiente: percebemos que há certa ordem eficiente entre os seres sensíveis
Curiosamente nem sempre conhecemos essa ordem, todavia, compreendemos que uma coisa não pode ser causa de si própria
Não é possível procurar até o infinito a procura de uma causa primeira para as coisas
“Procedendo-se ao infinito, não haverá primeira causa eficiente, nem efeito último, nem causas eficientes médias, o que evidentemente é falso”8.
Nesse contexto, se faz necessário admitir uma causa eficiente primeira para o mundo, denominada de Deus
A terceira via origina-se do possível e do necessário, que se caracteriza da seguinte maneira: “é a seguinte – Vemos que certas coisas podem ser e não ser, podendo ser geradas e corrompidas. Ora, impossível é existirem sempre todos os seres de tal natureza, pois o que pode não ser, algum tempo não foi”9.
Nessa circunstância, se todas as coisas podem não ser, ou se em algum tempo não existiu
Se isso fosse verdade, nesse momento nada existiria
O que não é, só pode existir por uma coisa existente
Portanto, nenhum ente existindo não é possível alguma coisa existir, e isso é falso
Assim fica, claro que nem todos seres são possíveis, mas alguns são necessários
Sabemos que as coisas que são necessárias, possuem de fora suas causas ou não a tem
Todavia, não é possível recorrer ao infinito, nos seres necessários para encontrá-las
Porém é uma incongruência aceitar um ser por si necessário, não tendo necessidade de algo externo
7 AQUINO, Santo Tomás. Suma Teológica (vol. 1). Campinas/SP. Ed. Ecclesiae, 2020, p. 40.
8 Ibid. 2020, p. 40.
9 Ibid. 2020, p. 40.
Esse ser necessário e causa dos demais, todos chamam de Deus
A quarta via se caracteriza pelos graus que se encontram nas coisas
Assim encontram-se nas coisas, tanto proporção maior e menor de nobreza, verdade, bem e outras qualidades
“Oura, o mais e o menos se dizem de diversos atributos enquanto se aproximam de um máximo, diversamente; assim, o mais cálido é o que mais se aproxima do maximamente cálido”10.
Nessa situação é necessário que tenha um ser que é maximamente bom em tudo quanto existe, e chama-se Deus
A quinta via advém do governo das coisas
Percebe-se que os corpos naturais, que precisam de conhecimento, funcionam em
função de um fim
Sendo possível concluir que operam sempre do mesmo modo, para alcançar o que é bom
“Mas, os seres sem conhecimento não tendem ao fim sem serem dirigidos por um ente conhecedor e inteligente, como a seta, pelo arqueiro”11
Então existe um ser inteligente, onde todas as coisas naturais se ordenam por ele, chamado de Deus
Significa que para acreditar num Deus como motor primeiro, não precisa necessariamente de fé na escritura e nas igrejas, por meio da razão isso possível
Entretanto, para acreditar num Deus como causa primeira ou de milagre, salvação e da existência do paraíso, além da fé, é preciso compreender e utilizar os princípios racionais
Para pertencer alguma instituição religiosa ou ser líder de uma, não precisa necessariamente de fé
Basta parecer que tenha fé para seus seguidores e para si próprio
Um dos motivos de extorsões e falso-moralismo no universo religioso, são esses:
São as tentativas de muitas instituições religiosas, ou líderes querem transformar Deus em um instrumento político-partidário, econômico e moral a partir de suas ideologias, tanto transcendentes e imanentes
Deus para compreendê-lo além da fé, precisa-se também da Razão (logos, ratio), que também é o Verbo
“No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”12.
10 AQUINO, Santo Tomás. Suma Teológica (vol. 1). Campinas/SP. Ed. Ecclesiae, 2020, p. 40.
11 Ibid. 2020, p. 41.
12 Jo. 1, 1.
