Ainda podemos falar de amor?

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Ainda é possível falar de amor?

Para mim, é difícil datar a origem do amor romântico. Nunca empreendi uma pesquisa nesse sentido e ainda não me animei a fazê-lo. Grande parte da produção literária romântica que surgiu como contraponto à racionalidade capitalista se desenvolveu com tramas amorosas, ainda que por vezes trágicas. No mundo real, casamentos e uniões várias entre homem e mulher se arranjavam como anexos simbólicos do compromisso político entre feudos, reinos, impérios…

Mas o mito do amor romântico sobreviveu aos nossos tempos. Está nas telenovelas e no cinema, na música assim como na literatura cotidiana. Paralelamente a tudo isso, assistimos a uma volatilidade cada vez maior das relações amorosas. Onde está a verdade?

Quando eu era professor de Filosofia no ensino médio costumava utilizar alguns excertos ou textos inteiros de autores proeminentes, de várias áreas, para lidar com aquilo que pra mim já era dado como “fugacidade do amor”. Passemos a alguns desses textos ou excertos.

A começar pela Escritura é sabido que o amor entre homem e mulher não é dado como algo natural. São Paulo admoestou os cristãos da igreja de Éfeso dizendo: “Vós, maridos, amai vossas mulheres…” (Ef 5.25). É o tipo de conselho que ele normalmente não daria a parentes consanguíneos, considerando a natureza inata do amor entre pessoas com este tipo de parentesco. Pelo contrário, São Paulo acreditava que o amor romântico, conquanto não fosse objeto de cultivo constante, arrefeceria. Uma vez ausente o amor não havia mais o recurso do divórcio que havia para os hebreus que estavam sob o AT, quando ao homem cabia pedir carta de divórcio quando ocorresse, eventualmente, de numa determinada manhã olhar para sua mulher e achá-la desagradável (atitude que não poderia existir partindo da mulher quando não quisesse mais o marido). Daí a solução paulina: “maridos, amai vossas mulheres.”

C. S. Lewis, renomado autor britânico que circulou por entre fileiras de ateus e cristãos, fez distinção clara entre amor e paixão. Enquanto esta corresponde a puro instinto que aproxima duas pessoas e que está sujeito a arrefecimento e satisfação – o que ocorre depois que saciamos a fome? – , o amor, por sua vez, corresponde a algo que depende de cultivo, desenvolvimento mútuo, no mesmo sentido apresentado por São Paulo.

Dá pra ver, a partir de uma perspectiva cristã, que o amor romântico não é algo tão simples de se manter. Daí que muitos crentes orem e acreditem que Deus lhes enviará o “amor verdadeiro para as suas vidas”.

Atualmente, afetados que estamos pela fugacidade dos eventos do mundo moderno, experimentamos a verdade inerente ao fato de que realmente o amor romântico é fugaz, em que pesem nossas idealizações mantidas pelas ilusões literárias e midiáticas.

Na música “Provas de amor” (Titãs) se diz que “não existe o amor, apenas provas de amor”. Inicialmente uma letra que pode parecer confusa redunda, por seu sentido, na mesma conclusão: amor é algo que se cultiva, que não se constitui apenas da declaração “eu te amo” (ela é uma expressão do amor cultivado) mas das provas cotidianamente apresentadas de que há amor e que o fazem perdurar. Mesmo quando se trai o amante apenas em pensamento, a confissão do pensamento é ocultada porque traz sofrimento (de uma traição não concreta). E isso não é forma de se provar amor. Pelo que a música sugere, amar envolve desencontros, separação imaginada mas não revelada… Mas é um amor que morre e reacende quando ambos lutam por ele e apresentam, cada um, suas demonstrações, suas provas de amor. Enfim, amar é provar que se ama concreta e diariamente alguém.

No eminente “soneto de fidelidade” de Vinícius de Moraes tal caráter (fugaz) do amor também fica evidente. Há que se dedicar atenção à/a(o) amante “antes, e com tal zelo, e sempre e tanto”. Acabou de cruzar com um encanto maior? Que daquele amor se encante ainda mais meu pensamento diante da tentação. “Vivê-lo em cada vão momento”, entoar-lhe elegias, rir e chorar diante dele… Poderá até ser fugaz esse amor, mas será bastante intenso. Nas palavras do poeta: “que seja infinito enquanto dure.”

Isto posto, temos ainda que levar em consideração o conservadorismo como onda moral que, hipocritamente, prefere pessoas desamadas em convívio num claustro a amores intensos posto que fugazes. A partir do paradigma da liquidez baumaniana, aprendemos também que todas as relações que se estabelecem entre as pessoas – e entre estas e as coisas – são essencialmente efêmeras. É preciso então uma reflexão mais aprofundada sobre que enquadramentos anacrônicos estamos querendo impor sobre as relações de nossa época.

A título de encerramento, digo que não se trata, este texto, de uma apologia ao amor fugaz. Que os amantes se amem eternamente, mas em verdade e ações e não apenas para se enquadrar em perspectivas conservadoras que apenas satisfazem egos de sacerdotes. E que cada experiência de amor seja intensamente vivida e lembrada como algo sublime na constituição da vida, sem que qualquer vivência seja renegada. Só temos uma vida e é importante que seja vivida por nós, em função de nós, nossos (as) amantes, e não em função de terceiros.

Francisco Sulo

Francisco Sulo

Escritor e Membro-fundador da ALABIP
Licenciado em Letras
Chefe do IBGE em Araguatins
Professor da rede básica pública do Tocantins.

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