Vozes da floresta desafiam a COP30 em Belém: protestos indígenas expõem contrastes na conferência do clima

Na primeira conferência climática sediada na Amazônia, o Brasil tenta mostrar liderança ambiental enquanto povos tradicionais cobram espaço e denunciam o abismo entre discursos e realidade

Sob o calor úmido e o som distante das embarcações que cruzam a Baía do Guajará, Belém vive dias de euforia e tensão. Pela primeira vez na história, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas acontece no coração da Amazônia. A COP30 reúne representantes de mais de duzentos países em busca de soluções para conter o avanço do aquecimento global.
O governo brasileiro tenta mostrar ao mundo o potencial da floresta e o papel essencial dos povos tradicionais na preservação do planeta. Mas, enquanto as negociações avançam dentro dos pavilhões climatizados, o lado de fora pulsa em outro ritmo — o das ruas, dos rios e das vozes que exigem ser ouvidas.

Na segunda-feira, 11 de novembro, um grupo de indígenas marchou em direção à chamada Blue Zone, a área restrita onde acontecem as negociações oficiais entre os países. Empunhando faixas que diziam “Nossa terra não está à venda” e “Não podemos comer dinheiro”, eles reivindicavam espaço de fala e compromissos reais com a proteção dos territórios indígenas. A manifestação, inicialmente pacífica, ganhou tensão quando os manifestantes tentaram entrar na zona diplomática. Houve empurrões, gritos e confronto com seguranças da ONU. Por alguns minutos, o acesso foi bloqueado.

Entre os povos que participaram estavam Tembé, Tupinambá, Kaxuyana e Tunayana, vindos de diferentes regiões do Pará, muitos após dias de viagem pelos rios. Eles pediam o que consideram uma reparação histórica: o reconhecimento de que a floresta não se preserva apenas com políticas internacionais, mas com a permanência de seus guardiões em suas terras.

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Na quarta-feira, dezenas de embarcações tomaram a Baía do Guajará em um protesto fluvial que chamou a atenção de delegações estrangeiras. Indígenas, ribeirinhos e ativistas ambientais navegaram em direção à orla de Belém com faixas e bandeiras pedindo a proteção da Amazônia e a demarcação de terras indígenas. O ato, acompanhado por equipes da Marinha do Brasil, foi pacífico e simbólico. As embarcações avançaram lentamente, formando um cortejo colorido sobre as águas barrentas. 

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As manifestações ocorreram no mesmo momento em que a cidade recebia bilhões de reais em investimentos para obras e infraestrutura ligadas à conferência. O contraste era inevitável: enquanto os líderes mundiais debatiam metas ambientais, comunidades indígenas denunciavam desmatamento, invasões e a falta de demarcação de terras.

Naquele mesmo dia, outro episódio reforçou as tensões políticas da COP30. Durante um evento oficial em que o governador do Pará, Helder Barbalho, assinava um acordo de cooperação ambiental com a empresa Hydro, do setor de alumínio, uma ativista indígena interrompeu o discurso e o chamou de “farsa”. O governo defendeu que o acordo buscava apoiar o combate a queimadas e ações de preservação, mas críticos afirmaram que a parceria representava uma tentativa de greenwashing — uma forma de aparentar sustentabilidade sem mudanças concretas nas práticas empresariais. O incidente expôs as divisões dentro de uma conferência que, embora voltada ao futuro, também carrega as disputas políticas do presente.

A COP30 está dividida em duas grandes áreas: a Blue Zone, palco das negociações entre países e organismos multilaterais, e a Green Zone, aberta ao público, onde ocorrem debates, exposições culturais e eventos promovidos por organizações civis. É nesse espaço mais livre que os povos da floresta têm encontrado voz — ainda que distante das decisões finais.

O encerramento da conferência está previsto para 21 de novembro, quando será apresentado o documento final com as metas e compromissos firmados pelos países. Dentro e fora dos pavilhões, o clima é de expectativa.
Enquanto negociadores falam de metas de carbono e economia verde, os povos amazônicos esperam sinais de que suas reivindicações — antigas, diretas e urgentes — finalmente serão ouvidas.

Belém vive um momento único. A cidade, coberta por faixas de boas-vindas e discursos de esperança, é também o retrato das contradições do mundo que tenta salvar. Na floresta, o tempo corre de outro modo — mais lento, mais silencioso, mas cada vez mais ameaçado.
E é ali, entre os protestos e as promessas, que a COP30 revela seu verdadeiro desafio: conciliar o discurso global sobre o clima com a realidade viva da Amazônia.

Mágson Alves

Mágson Alves

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Assessor de comunicação

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