As declarações recentes da porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmando que Donald Trump estaria disposto a usar meios militares para “proteger a liberdade de expressão” em referência a uma eventual condenação de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, representam um dos episódios mais absurdos e constrangedores da política internacional recente. Não há outro termo para classificar: trata-se de uma ameaça grotesca, infantil e perigosa contra a soberania de um país que tem instituições sólidas, uma Constituição democrática e um Judiciário atuante. É a demonstração mais clara de que Trump e seu entorno não sabem dialogar e recorrem ao recurso mais primitivo de quem tem medo da democracia: a intimidação.

Quando Leavitt diz que Trump não hesita em usar “meios econômicos ou militares” para defender a tal “liberdade de expressão”, o que ela realmente está afirmando é que, diante da falta de argumentos, a estratégia será ameaçar um país inteiro com retaliação. Ameaçar um Estado soberano como o Brasil, que possui Judiciário independente, Constituição e um processo penal em curso contra réus acusados de tentar destruir o Estado Democrático de Direito, é não apenas uma afronta diplomática, mas também uma postura imbecil, arrogante e desesperada. É o retrato de uma política externa que não conhece limites e que enxerga qualquer contrariedade como motivo para sabotar instituições.

Trump não defende a liberdade de expressão, ele defende os seus próprios interesses e os dos aliados que compartilham sua cartilha autoritária. O que está em jogo não é a democracia, mas sim a tentativa de blindar Jair Bolsonaro, um ex-presidente que é réu no STF justamente por tentar dar um golpe de Estado em 2022 e impedir a posse de um presidente eleito legitimamente pelo povo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. Bolsonaro e seu núcleo militar e político organizaram uma trama golpista que incluiu planos de prisão de ministros do Supremo, convocação ilegal das Forças Armadas e manutenção do poder à força. A acusação é clara e grave: tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Portanto, o que Trump chama de “liberdade de expressão” nada mais é do que uma defesa vergonhosa de práticas golpistas e antidemocráticas. É a celebração da mentira travestida de discurso político.

Mas Trump não tem moral para falar em democracia. Sua própria biografia é um compêndio de escândalos, falências e condenações. Foi o primeiro ex-presidente da história dos Estados Unidos a ser condenado criminalmente, com 34 acusações por falsificação de documentos contábeis no caso conhecido como “hush money”, que envolveu o pagamento ilegal para silenciar uma atriz pornô. Foi condenado também por difamação e abuso sexual contra a escritora E. Jean Carroll, somando mais de 80 milhões de dólares em indenizações. Envolveu-se em fraude financeira bilionária, manipulando valores de propriedades para enganar bancos e obter benefícios fiscais. Foi acusado de incitar o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, numa tentativa escancarada de golpe de Estado para não reconhecer o resultado eleitoral que deu vitória a Joe Biden. Ou seja, o homem que agora posa como defensor da liberdade de expressão é o mesmo que atacou sua própria democracia e incentivou uma turba a depredar o Congresso americano.

E como se não bastasse, paira sobre Trump a sombra de um de seus relacionamentos mais tóxicos e repugnantes: a ligação com Jeffrey Epstein, o financista acusado de tráfico sexual de menores e que acabou morto em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas em uma prisão de Nova York. Trump foi próximo de Epstein durante anos, foi fotografado com ele diversas vezes e chegou a elogiar publicamente o financista, afirmando que ele “gostava de mulheres jovens”. Embora Trump depois tenha tentado se distanciar, a mancha dessa proximidade jamais será apagada. Recentemente, voltou à tona a revelação de uma nota sugestiva enviada por Trump a Epstein, que demonstra que a relação entre eles era mais próxima do que o ex-presidente gostaria de admitir. O caso Epstein é um dos escândalos mais tenebrosos da política e das elites americanas, e a figura de Trump está irremediavelmente associada a essa rede de abusos e segredos.

Diante desse histórico, é quase risível que Trump se atreva a dar lições ao Brasil sobre liberdade e democracia. O país que ele tenta ameaçar é uma nação soberana, com mais de 200 milhões de habitantes, que elegeu democraticamente seu presidente e que possui instituições que funcionam, apesar de todas as dificuldades. O Brasil não precisa da tutela de um populista autoritário que coleciona escândalos sexuais, empresariais e políticos. O Brasil não precisa de ameaças militares vindas de um líder que já tentou derrubar a democracia de seu próprio país. O Brasil precisa de respeito à sua soberania e de apoio internacional na defesa das instituições democráticas.

O que Trump e Bolsonaro têm em comum é a recusa em aceitar as regras do jogo democrático. Ambos foram derrotados nas urnas e ambos recorreram à narrativa da fraude e da conspiração para se manter no poder. Ambos tentaram desacreditar seus tribunais, seus sistemas eleitorais e suas cortes constitucionais. E agora, de forma patética, um se coloca como protetor do outro, como se o autoritarismo tivesse uma espécie de pacto de solidariedade global. Mas o que eles não percebem é que a história não perdoa golpistas. A democracia pode ser atacada, pode ser ameaçada, pode ser testada ao limite, mas ela sempre encontra meios de resistir e expor os que tentaram destruí-la.

A fala de Karoline Leavitt, em nome de Trump, não é apenas um disparate diplomático. É um insulto direto à soberania do Brasil, um ataque ao Supremo Tribunal Federal e uma tentativa de intimidar ministros que cumprem seu dever constitucional. É também a confissão de que, no fundo, Trump e Bolsonaro não têm outra arma além da ameaça. E a ameaça, ao contrário do que eles pensam, não é sinal de força, mas de fraqueza. Só quem não sabe dialogar ameaça. Só quem tem medo da verdade ataca o Judiciário. Só quem está afundado em escândalos e mentiras precisa recorrer à retórica militar.

O Brasil não pode aceitar calado esse tipo de afronta. É preciso responder com firmeza, com a convicção de que a democracia brasileira não está à venda e não será chantageada. O que Trump defende não é liberdade de expressão, é a liberdade de golpistas. E isso, felizmente, não tem espaço em um país que aprendeu, a duras penas, o valor da democracia.

Mágson Alves

Mágson Alves

CEO THE ANEXO

| Fotógrafo | Videomaker

Assessor de comunicação

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Não perca

marea wellness CXCqznk3YOc unsplash scaled

Como Incorporar Hábitos Saudáveis de Exercício Físico no Dia a Dia

Incorporar hábitos saudáveis de exercício físico
53555285417 8aedc4883e o scaled

Equilíbrio de poder em tempos de orçamento secreto

Pois bem. Voltemos ao tema do