Flávio chama Lula de “nove dedos” em debate e pede desculpas

Senador disse que o presidente “dá com uma mão e tira com os nove dedos”. Lula cobrou retratação no direito de resposta, e o candidato do PL recuou

O comentário provocou risos na plateia do debate da TV Globo. Pouco depois, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformou a frase do senador Flávio Bolsonaro (PL) em tema de sua resposta e cobrou uma retratação diante do público. Flávio pediu desculpas.

O episódio ocorreu na sexta-feira (23), no último debate entre os dois candidatos antes do segundo turno, marcado para domingo (25). Segundo o material apurado, Flávio disse que Lula “dá com uma mão e tira com os nove dedos”, em referência à amputação do dedo mínimo da mão esquerda do presidente.

No direito de resposta, Lula citou a própria trajetória de trabalhador. “Me chamou de nove dedos, se alguém aqui nesse púlpito que sabe o que é trabalho sou eu”, disse. Ele afirmou ainda que Flávio “nunca trabalhou na vida e não sabe o que é uma carteira profissional”.

Em outro trecho, Lula usou um termo para qualificar o adversário. “Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, afirmou. A reportagem registra a fala como uma qualificação feita por Lula, não como fato apurado.

O presidente também associou o comentário ao desrespeito com trabalhadores que sofrem acidentes. “Você vai ter que pedir desculpa. O povo trabalhador está vendo. Milhares de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal”, disse.

Depois da resposta, Flávio se retratou. “Se eu ofendi, eu te peço desculpas, não queria te ofender”, afirmou o senador.

O acidente de 1964

Lula perdeu o mindinho esquerdo aos 18 anos, em um acidente de trabalho. De acordo com a revista Trip, o episódio ocorreu em 1964, quando ele trabalhava à noite como torneiro mecânico na Metalúrgica Independência, na Vila Carioca, zona sul de São Paulo.

Em relato ao jornalista Mário Morel, o próprio Lula atribuiu o acidente a uma falha em uma prensa, durante a madrugada. Segundo ele, um parafuso quebrou e ele refez a peça. Na hora de recolocá-la, o colega que operava a máquina cochilou e soltou o braço da prensa, que fechou sobre sua mão.

Lula contou que esperou amanhecer para receber atendimento. A Trip informou que ele foi levado ao hospital Monumento, que atendia segurados do IAPI, o instituto de previdência da época. O ambulatório, porém, não guarda prontuários antigos, porque os registros são eliminados periodicamente.

Anos depois, o próprio Lula relatou à jornalista Denise Paraná o impacto da amputação. “No hospital, o médico olhou o meu dedo e cortou o resto. Fiquei preocupado com a minha mão. Passei alguns anos com complexo por estar sem dedo. Eu tinha vergonha”, contou. Ele afirmou que a situação era comum entre metalúrgicos e que, “naquele tempo”, a segurança do trabalho “era quase inexistente”.

O cirurgião Carlos Henrique Fernandes, chefe do grupo de cirurgias da mão da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), disse à Trip que o mindinho é conhecido como o dedo da “força de preensão”, por ajudar a segurar objetos e ferramentas. Para ele, perdê-lo “significa sofrer um trauma físico e emocional muito forte”.

Uma disputa sobre onde ocorreu

O local exato do acidente já foi objeto de versões diferentes. A Trip apurou que a metalúrgica Fris Moldu Car, de São Bernardo do Campo, usou o episódio em um pedido de recuperação judicial. Nele, a empresa sustentou que Lula começou ali a vida de metalúrgico e que a amputação ocorreu em suas dependências.

A biografia e a Presidência contestaram essa versão. A jornalista Denise Paraná, autora de “O Filho do Brasil”, afirmou que Lula perdeu o dedo na fábrica Independência, onde trabalhou por 11 meses. Segundo a Trip, a Presidência confirmou a informação à revista. Lula passou pela Fris em 1965, depois de deixar a Independência.

A Metalúrgica Independência funcionava em um galpão na avenida Carioca e encerrou as atividades em 1998. O antigo dono, o polonês Estanislau Knysak, negou à Trip que o acidente tenha ocorrido na empresa e disse que Lula estava “p

Mágson Alves

Mágson Alves

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